A Noiva Cadáver: como a Emily é tão mortalmente identificável?
Afinal, toda garota já sonhou em ser ser amada. E pagou caro por isso.
A sintaxe macabra de um homem.
Lançado em 2005, A Noiva Cadáver é um filme estadunidense criado pela mente voraz de Tim Burton, onde acompanhamos a jornada de Victor e Emily: dois (des)amantes condenados pela vida. Neste longa-metragem gótico, visualizamos o amor melancólico pelos olhos de um artista que, ao dissertar sobre amor, ensinou mais sobre a completude e desapego do que imaginávamos.
Se tiver um limão, peça uma morta em casamento!
Victor Van Dorst é um rapaz sensível e solitário, quase um reflexo atemporal de uma geração inteira, onde se vê nas garras de um casamento que não lhe pertence – o seu próprio casamento. Victoria Everglot, sua noiva vívida, representa uma promessa de status. Ascensão social! Mas como crescer se você sequer consegue recitar os próprios votos? Inaceitável errar em mundo cinzento: qualquer mancha no tapete vira notícia.
E é em um ato surpreendente de oratória exemplar, ele pediu sua futura esposa em casamento! Espere, era só um galho.
Oh, céus! Não! Era sua noiva, Victoria Everglot? Não, não. Era sua noiva cadáver, Emily!
Ah, nada como encontrar a metade da sua laranja apodrecida. E assim transitamos entre a derrota de viver e a glória de morrer. Relacionamentos são uma via de mão dupla engraçada.
A mulher além do cadáver.
Emily é a promessa morta que estar viva é mais do que respirar. É sentir, mesmo que seus ossos frios não permitam mais isso ao tocar seu doce piano.
Toda garota, ao menos na infância, já sonhou em encontrar o seu príncipe encantado. Um condicionamento que está presente em tudo que é ditado ao feminino. Mas o que acontece quando príncipes encantados não existem, e sim só a ideia distorcida deles? E se muitos nobres fossem apenas raposas ardilosas? Bem, de modo infeliz, muitas se tornam mais uma estatística. Mas antes de um número, são só apenas moças apaixonadas. Emily estava apaixonada.
Vinda da riqueza, nem todo o ouro do mundo poderia suprir um coração que anseia ser amado. E mesmo após a morte, suas jóias não tem tanto valor quando seu coração foi partido. Apesar dos pesares, nossa querida noiva sempre manteve-se esperançosa que um dia seria aquela no altar, e não apenas uma dama de honra perpétua.
Em um mundo mórbido colorido, morreu e viveu sua morte com amor, assim como viveu no cinzeiro social da sua comunidade.
Vivaz tanto em vida quanto na morte, uma artista nata de uma alma romanticamente trágica. Mesmo com todos os motivos de amargurar e murchar como as flores de seu buquê, resistiu a maldade com força e coragem. A melancolia residente em sua música nunca foi maior que sua empatia perante a dor. Traída, mas sempre leal. Essa é a Emily, a mulher além do cadáver.
A outra mulher.
Não existe a outra mulher quando só uma sempre foi a única opção. Não existe dúvida em escolhas, e não há escolhas sem dúvidas – exceto no amor. O coração não mente, palavras sim. Gestos, presentes… Mas as intenções nunca podem ser enganadas. Ter pulso não poderia fazê-lo te conhecer bem se ele não quiser.
Neste diálogo doloroso, Emily desiludiu-se em sua própria torre frágil de cartas de companheirismo, devoção e esperança. Victoria surge como um frescor, talvez o próprio reflexo do que poderia ter sido. Do que ela merecia ser. A rivalidade é um discurso trivial quando ambas refletem a desilusão.
Victoria Everglot é uma jovem dama gentil, demasiada sonhadora – assim como Emily foi – sonhando com o seu grande dia! Ela quer tocar o piano assim como ele a toca, mas é tão inapropriado. Ela não era uma inimiga, e tampouco veio roubar o lugar do altar. A mesma já casou com o pior dos pesadelos, que castigo! Ambas foram vítimas de um golpe, e ambas tiveram sua voz silenciadas por algozes que se sentiam no direito de manchar sua força e poder.
Nenhuma noiva é bonita quando chora, e ambas derramaram muitas lágrimas. Talvez, em uma outra vida, poderiam ter sido boas amigas.
E pode beijar a noiva!
Os casamentos são felizes, ao menos que você esteja casada com um predador, um louco ou um assassino: infelizmente, neste caso, são os três.
Muitas vezes, escutamos sobre o primeiro amor do que a carreira dos sonhos. Crescemos centradas (e centrados) na ideia que o amor é um ponto crucial das nossas vidas, que nossa completude virá em uma aliança em nossos dedos e com a promessa do “felizes para sempre”. Mas como podemos ser eternamente completas, se somos apenas a metade de uma laranja com uma larva simpática de alguém?
Emily ansiou tanto em ser amada que esqueceu de se amar. Queria ser vista, mas não enxergava a verdadeira beleza no espelho. Ela poderia ser ouvida, mas não escutava além da sua melancolia apaixonada.
A completude só pode ser alcançada quando você segue em frente, mas Emily está eternamente no passado. E ao reconhecer que Viktor não era seu, ela desapegou dos seus sonhos, para que outra noiva pudesse ter a completude dos seus próprios sonhos.
O beijo aqui é representado como sua ascensão ao seu descanso eterno: borboletas.
Sabia que borboletas são o símbolo universal da metamorfose? Da mudança, da transição. A mentalidade é impermanente, estamos sujeitos a crescer. E crescer requer desapegar.
Corações partidos podem se curar com aquilo que você mais precisa, mas não necessariamente quer. Emily queria ser amada, e, ao encontrar libertação em uma união mútua que ela não pertencia, pode finalmente descansar com consciência que quebrou o ciclo de dor e ganância. E é por isso que seu coração parado é tão identificável.
Damas de honra podem se escolher.
Há tradições que nasceram para serem quebradas, partidas e estilhaçadas. Talvez ser uma noiva seja se amar tanto que você só se entregará para alguém que te tratará como merece – você mesma. No meu livro O Recital de Ossos Quebrados há uma passagem que diz: “A falta de autoestima é um roubo, ela apenas termina de acabar com o que ainda resta de si mesmo”.
Escolha-se, e seja o grande amor da sua própria vida.
Copywriting © 2026
Evelyn LaBelle. Todos os direitos autorais reservados. Este texto está protegido e é proibida a reprodução sem consentimento.
Apoie a literatura nacional, apoie-nos, seus artistas.
0 Comments Adicionar um comentário?