Pomni: apesar de tudo, ainda é você.
Não importa o que tenha acontecido.
O artigo a seguir contém spoiler de The Amazing Digital Circus. Leia-o por sua própria conta e risco.
Quem foram os bobos da corte?
Bobos da Corte eram o pilar do entretenimento nobre da Renascença e Idade Média – eram aqueles que faziam a monarquia rir até chorar – com músicas, piadas, brincadeiras e danças. E também eram os únicos que poderiam ousar criticar abertamente o rei, já que eles não eram levados com seriedade ao seu trabalho. Com irreverência e espontaneidade, eles iluminavam a Era das Trevas de modo atroz e cômico.
O que "Digital Circus" significa ou deveria significar?
O Incrível Circo Digital é um enigma, até dado momento, sabemos que aquele espaço liminal surrealista não é apenas um jogo – e sim um experimento de imortalidade cerebral que deu totalmente errado, e que se tornou a prisão e a condenação de muitas pessoas com avatares coloridos e fofos naquele ambiente quase infantil e performático (onde, convenhamos, qualquer um entraria em um quadro de depressão lá dentro).
Quem o criou foi Scratch, um gênio condenado que não pode aceitar seu fim ocasionado por um tumor, e que ansiava a vida eterna por meio de um ambiente virtual que prolonga sua existência ao copiar e escanear sua mente.
Caine é o anfitrião do Circo Digital, uma IA que gerencia o ambiente e impede que os jogadores abstraiam, um verdadeiro guloso (já que a série sugere que ele devorou a IA que deveria gerenciar o circo) e lunático anfitrião. O nono, e penúltimo episódio da série, confirma que os jogadores (Pomni, Kinger, Jax, Zooble e Gangle) são apenas cópias digitais e que seus corpos originais podem não existir mais ou estarem desconectados do servidor: ou seja, um final feliz não é negociável.
Para Caine, o circo digital nada mais era do que seu propósito, a razão de todos seus esforços árduos e ingratos aos humanos de formas engraçadas que ele idolatrava. E para Pomni e seus amigos, a situação não é nada mais do que uma prisão, o enterro de todos os seus sonhos e a verdade mais cruel de todas: não há escapatória do inferno. Essa antítese de significado macabro nos faz pensar o quanto uma história tem vários lados, visões e sentimentos. A vida humana é singular, e a IA apenas cópia isso.
A trajetória de Pomni.
Pomni nos foi apresentada como uma pessoa ansiosa, assustadiça e quase em estado constante de pânico. Não há julgamentos perante isso, afinal, quem não surtaria também? Imagine que um dia você está visitando prédios abandonados para escapar do tédio intrínseco da vida adulta, e, de repente, sua vida vira de ponta cabeça e seu corpo não é mais seu, suas lembranças estão embaralhadas e nem mais nome você tem. Assustador, infame e certamente um baita motivo para hiperventilar. Já parou para pensar em como os personagens se enxergam dentro dos gráficos da década de 90? De dia uma humana de carne e ossos, e a noite uma boba da corte elástica e flexível demais para o próprio bem. Eu não gostaria de estar no lugar dela. O final do primeiro episódio é apenas um prenúncio (nada) sutil do que nos aguarda da nossa protagonista traumatizada.
A partir do segundo episódio intitulado Candy Carrier Chaos!, o percurso continua com uma Pomni mais reclusa, cética e prestes a não digerir nada daquilo. O segundo episódio é mais exploratório sobre a situação atual e ambientação, e nos é apresentado Gummigoo, o primeiro amigo real da protagonista dentro do circo, que também é um NPC. Eles têm uma conversa profunda, contrapondo seu cinismo inicial. É tão rápido quanto sua amizade se iniciou, a mesma se esvaiu em forma de confetes, dando início a outro trauma em trejeitos de pinhata. E perante isso, começa a “aceitar” sua nova realidade.
No terceiro episódio, a lucidez de Kinger abala suas estruturas mais fragilizadas com sua compaixão. Aqui vemos como a mesma sequer tem a dignidade do silêncio, já que seus penduricalhos fazem barulhos, lembrando-a que ela não passa de uma piada. Neste inferno digital, ela se vê em trevas, onde o rei mostrou que há esperança nos momentos mais sombrios e Pomni aprendeu que cada um tem seus próprios demônios.
No quarto episódio o foco maior é na personagem Gangle – onde escreverei um artigo no futuro – mas Pomni um destaque em sua frustração e o quanto o absurdo tornou-se sua rotina matinal e noturna: se é que o ambiente tem noção de tempo. E foi nesse episódio que Pomni teve mais contato com Jax, e por mais que tenha sido sutil, sua relação começou a ser regada neste momento.
Do quinto ao sétimo episódio o desenvolvimento da nossa bobinha é atrelado ao Coelho Roxo Tragicamente Cômico Que Finge Estar Em Um Estado Constante de Sarcasmo Porque O Peso Da Realidade É Demais Para Aguentar, ou só Jax para abreviar.
Pomni e Jax: um toque humano.
A relação de Pomni é, no mínimo, humana. Verdadeiramente humana. Começou como uma provocação irônica por meio de apelidos como “Pom Pom”, e no meio do caminho sou como uma verdadeira amizade onde cantaram Daisy Bell (uma curiosidade é que Daisy é o nome da protagonista do meu livro Toque Humano, disponível na Amazon e Uiclap) e até agora são nuances silenciosas que dizem o quanto um se importa com o outro por meio de olhares.
Na música Daisy Bell, de 1892, a primeira música cantada por um computador mainframe IBM 7094 em 1961, há um trecho que diz: “Daisy, Daisy. Peddling away down the road of life”. E isto pode revelar como a relação desses dois é cíclica, uma verdadeira roda gigante de altos e baixos. Ambos andam por uma estrada de incertezas, e no fim esperam encontrar a coisa mais importante – eles mesmos.
Nesta amizade cheia de sentimentalismo contido e exposto, ambos ganharam mais palco, desenvolvimento e carisma. Talvez Pomni buscasse em uma amizade quem não a visse de modo infantil e a tratasse com a adulta que ela realmente é, e Jax estivesse buscando a humanidade que tanto nega que há em si mesmo. A briga deles é um grito muito alto de humanidade e vulnerabilidade. E mesmo com a relutância de Jax, sabemos o quanto ele a admira como sua única amiga.
Não importa o quanto seu passado doa, o seu presente não existiria sem ele, tenha orgulho.
Quando Pomni enfrentou Caine em seu surto de cansaço e grandeza, revelou-nos o porquê dela ser tão obstinada: ainda havia esperança, por mais minúscula que fosse, ela não desistiria do seu plano de salvar seus amigos, mesmo com todas as probabilidades minúsculas. Ela nos mostrou o verdadeiro poder de um bobo da corte.
Da personagem mais assustada a uma verdadeira heroína, Pomni é uma personagem feita de fases, de crescimento. Por isso que a cena dela se olhando no espelho é tão simbólica e bela: ela é a mesma de antes, mas suas mãos trocadas revelam o quanto ela cresceu desde então. Pois, apesar de tudo, Pomni ainda é Pomni.
A verdadeira saída é a sua própria evolução.
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